Carta de Despedida

João Pessoa, 2 de julho de 2011

Queridos Leitores, queridos amigos.

Enquanto lhes escrevo, faço minha mala. Vou partir. Desta feita, zarpo da geleira azul da solidão, porque é aqui que me encontro, sozinha, com meus lápis sem ponta, meus papéis desarrumados, um vagão cheio de personagens, um blog que perdeu seu condutor, seu mestre, e me deixou com a chave da casa, sem tempo certo para voltar.

Escrevo, faço a mala e escuto as trilhas de Secret garden, e penso no que foi o exercício de escrever o nanoromance. Não pude compreender direito os primeiros que se foram, porque ainda estava no auge do meu entusiasmo. E um dia o mestre, o inventor, o arquiteto da arquitetura quântica se foi. Meu defeito, genético ou cultural, é não saber tomar café sozinha, viajar sozinha, ir às compras sozinha. Eu sei, todos vocês dirão, “escrever é um ato solitário”. Pois eu lhes digo que mesmo quando o arquiteto se foi, quando eu ia escrever, toda uma matilha de leitores se punha nos meus calcanhares, a pedir isso, a exigir aquilo, a desejar a morte de um dado personagem, a pedir barulho grosso. Confesso que mesmo naquela exígua trilha de palavras, meu maior prazer era tentar despistá-los, negar o que me pediam, inventar outras estratégias. Pois bem, até a matilha de leitores se foi. Escrever o nano tornou-se uma tarefa solitária, in-partilhada, perdeu-se o sentido, a motivação, e, confesso, já tive vontade de jogar as chaves no mar, mas não farei isso. Elas ficarão na pequena gaveta do esquecimento, aquela que alguém sempre abrirá um dia, dará com a chave e se perguntará: - Da onde é? Que porta ela abre?

Um beijo agradecido a todos, por esses meses que ficamos juntos, e, quanto aos personagens, a essa gente apaixonada por ciência, não se preocupem, pois eles me disseram que estão a precisar de uma longa noite.

2 comentários:

Jairo Cézar disse...

Cara Joana,
Quando beto me falou do projeto, achei-o interessantíssimo, mas muito pesado. Afinal, parir um nano por dia não é tarefa fácil.
Não quis ser a cassandra da vez, mas, no íntimo, sabia que manter o projeto vivo até 31 de dezembro seria complicado.
No mais, parabenizá-la pela persistência e pela escrita refinada.
Inté!

Mlailin disse...

é sempre assim não podemos contar com ninguém a não ser consigo mesmo. Se eu fosse vc, continuava de alguma forma. Li só essa pagina de despedida vou ler o resto. Bjs